OS CONTORNOS IMPRECISOS DA IDENTIDADE EM UTOPIA SELVAGEM, DE DARCY RIBEIRO
Susana Scramim - UFSC
Utopia Selvagem, escrito em 1981, narra a história de um herói nacional, um combatente, na guerra por fronteiras entre os países situados ao norte da Amazônia: Venezuela, as Guianas e o Brasil. Às margens de um rio situado perto da fronteira do Brasil com a Venezuela, o herói da saga, o tenente “Carvalhall” , negro e gaúcho, é raptado pelas Icamiabas com a finalidade de engravidar as índias “sem marido”. Entre elas descobre as artimanhas de um povo guerreiro que pratica a guerra com um sentido diferente daquele da guerra promovida pelo estado moderno. Como são nômades, as Icamiabas não guerreiam pelo estabelecimento de novas fronteiras, guerreiam porque a sua vocação nômade impõe a guerra como condição de existência, cuja caracterização se opera na negação em integrar um discurso masculino e estatal. O herói, permeável a novas formas de organização social, gosta de estar entre elas, recebe até um novo nome, Pitum. No entanto, o medo de ser sacrificado pelas guerreiras, que não admitem homens no seu convívio, não permite o desfrute dos prazeres que o negro goza entre as índias. Seu pavor em ser morto o salva: as Icamiabas rejeitam sua carne, suspendem a prática miscigenatória e descartam-no até para o ritual antropófago. Pitum é devolvido ao mesmo lugar de onde foi tirado: nas margens de um rio. Ali, não encontra mais o pelotão que estava sob seu comando. Anda pela selva e encontra uma aldeia de índios Galibi, na qual já está instalada uma missão católica e outra protestante. Conhece as freiras Tivi e Uxa, membros de missões religiosas diversas. Também conhece Calibã, tuxaua da aldeia, apaixonado por Tivi. O ex-tenente gosta daquele convívio entre os índios, especialmente porque não há mais o perigo iminente que o ameaçava entre as Icamiabas. Encontra Axi, um homossexual índio, por quem se apaixona. O narrador de Utopia Selvagem, detentor do controle do ponto de vista da história, introduz, pouco antes de concluir a narrativa, o relato de uma distopia, quer dizer, uma anti-utopia que evoca a tradição do discurso utópico: o mundo de Próspero. Numa clara referência às utopias negativas inauguradas no século XIX, ali estão questionadas as suficiências e insuficiências desse mesmo discurso. É interessante observar como essa distopia de Próspero coloca-se em oposição ao mito e, paradoxalmente, o quanto ela se pretende histórica. Entendo mito, aqui, como uma narrativa etiológica que vale por si mesma. No entanto, essa autonomia não declina, como acontece nas outras narrativas míticas as quais funcionam como relatos fundadores, da presença da história na sua tentativa de explicar o processo de fundação. Apesar de sua crítica ao mito, a distopia de Utopia Selvagem insiste em remeter-se ao caráter exemplar e transcendental de toda utopia. Todavia, ao contrário do que se pode esperar, a insistência nessa característica, quer dizer, na sua intenção em ser exemplar, só faz com que ela não alcance o estatuto de perfeição exigido de todo modelo. A literatura não redime o homem e tampouco a sociedade.
Enquanto no romance Maíra, publicado por Darcy Ribeiro em 1976, há uma clara opção pelo mito fora da história, a relação entre o mito e a história na utopia selvagem de Pitum é oscilante. A utopia na selva é a ilha que se descola do território, num acontecimento provocado pelos alucinógenos ingeridos na Festa Brava do Caapi. Essa separação do território remete diretamente à história do gênero utopia, remete ao relato imaginário de Thomas Morus a respeito do reino perfeito efetivado na ilha de Utopos, que não era uma ilha, e sim um istmo que o rei ordenara separar do continente. Na ilha tropical da utopia selvagem estão Tivi e Calibã, Pitum e Axi, juntos e prontos para viver novas formas de sociabilidade, nesse caso também, de nacionalidade, uma vez que a ilha parte em direção ao Brasil.
Longe de ser reprodução de outras culturas e também sem ser uma dilaceração de sua própria, a interpretação de Darcy Ribeiro a respeito do homem utópico aponta para uma transformação radical, porque esse procedimento constitui um trabalho intenso com categorias temporais: o passado e o futuro com vistas a interferir no presente. Dessa forma, o livro Utopia Selvagem assume como seus os objetivos das utopias temporais as quais também trabalhavam com as categorias de passado e futuro. Utopia Selvagem atribui outras funções para as reutilizações do passado que opera no tempo presente. Contudo, a vocação pedagógica de toda utopia, e não somente a das utopias temporais, é um dos pilares sobre os quais está estruturado esse romance de Darcy Ribeiro. Inserida ainda nesse procedimento de articular o passado e o presente, ao selecionar os relatos fundadores do imaginário indígena e do imaginário europeu sobre os indígenas, a interpretação que Darcy Ribeiro faz desses mesmos relatos está permeada por um desejo de repetir a performance desses mesmos relatos. Todavia, a repetição traz consigo um elemento excedente. A reencenação e o excesso são a sua maneira própria de existir. Utopia Selvagem, antes de ser meramente uma imitação dos textos que agem como seus precursores, é uma macaqueação produtora de modificações radicais. E porque incorpora os cacoetes dos modelos aos seus, só tem o futuro como horizonte de significação, anexando-se, assim, à modalidade de textos que se valem da potência da linguagem mimética como possibilidade de utopia.
É sintomático que Darcy Ribeiro tenha se valido do poder mimético da linguagem para acrescentar mais elementos na interpretação da nacionalidade. Os povos indígenas relacionaram-se com uma cultura ocidental que lhes era imposta pela força mimética da linguagem. Utopia Selvagem é um relato utópico entre os índios, portanto, sem os preconceitos que recaem sobre a linguagem macaqueadora, intervém no diálogo ainda desigual entre a cultura européia e a latino-americana. Utopia Selvagem reencena e transforma o legado imposto. Mimetiza os procedimentos dos textos que compõem a tradição das interpretações do Brasil. Essa tradição vai desde os cronistas do descobrimento e tem em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda seus avatares modernos, além dos modernistas Mário e Oswald de Andrade. Pelo mimetismo na linguagem, Utopia Selvagem acrescenta-se ao rol de intérpretes da visão do paraíso pós-conquista.
A malha de referências em Utopia Selvagem redireciona o discurso formador do povo brasileiro. O movimento é de retorno à lenda, ele vai da história para a lenda, quando o leitor esperaria o movimento inverso. O texto parte de um evento desencadeador de mudanças no processo histórico, a guerra, para desaguar no imaginário sobre a guerra: as nômades guerreiras amazonas, condenadas a um infinito movimento de transformação de sua espécie por delegarem ao absolutamente outro o papel de seu reprodutor. É dessa maneira que o texto chega ao discurso da nacionalidade, entendido por minha leitura como uma outra lenda, como uma fábula “da inocência perdida”, ou seja, uma fábula da nacionalidade. É válido lembrar junto com Gilles Deleuze e Félix Guattari que esse movimento realizado pela figura das Amazonas envolve uma atitude antigenealógica, uma vez que a relação mulher/arco/estepe é um agenciamento de diferentes discursos[1]. Na referência aos índios Galibi, mesmo completamente aculturados, falando uma língua com sotaque francês, o leitor entrevê uma etnia que insiste em continuar sua frágil existência pela manutenção de suas estruturas familiares cuja função é a de reproduzir a identidade cultural do grupo social. São essas estruturas que garantem a permanência da etnia Galibi na sua condição de índios. A isso equivale dizer que a genealogia ou a manutenção da estrutura da árvore contém uma lógica de reprodução. Em Utopia Selvagem encontra-se latente uma teoria da formação do homem novo, o brasileiro, a partir das bordas, do resíduo da colonização, ou seja, a partir do excesso de outras nacionalidades, inclusive da própria condição de fragmentação dos índios em relação ao organismo estatal. Aqui o enfoque é no brasileiro, no mestiço, e não no indígena como no romance Maíra. Com esse texto, Darcy Ribeiro ultrapassa o sentido empírico de sua própria antropologia. Oferece uma outra versão das estruturas elementares de parentesco que é a história da vida de homens e mulheres infames, porque se misturam sem observar os critérios da nacionalidade e da etnia, mediante aproximações aleatórias ou contingentes e, por isso mesmo, tão avessas a classificações e homogeneizações que o discurso da identidade impõe. Esse brasileiro residual seria impossível de ser definido pelas práticas antropológicas que insistem em, meramente, constituir genealogias, como as construídas no livro O povo brasileiro, publicado por Darcy Ribeiro em 1995. Minha leitura de Utopia Selvagem quer ressaltar a possibilidade de pensar o homem utópico na obra de Darcy Ribeiro por um enfoque que desvia do sentido que lhe é dado na antropologia, ou seja, este estudo quer afirmar que o brasileiro na obra de Darcy seria composto por genealogias, da mesma forma que seria composto por variações da genealogia cujo resultado mais visível é a releitura dos mitos e da história da formação do Brasil efetuados nesse romance.
O apelo à proto-história do Brasil em Utopia Selvagem é intenso e mesmo sem significado para o presente. A história da nação possui um mítico marco fundador: o Ypy-marã-iy, o lugar da “Terra sem Males”. Todavia, em Utopia Selvagem, essa “Terra sem Males” é freqüentada por militares: os soldados e oficiais do exército do qual o tenente “Carvalhall” faz parte; e pelo exército para-militar das guerreiras Amazonas. O exército nacional é caracterizado em Utopia Selvagem por uma visão das relações hierárquicas da sociedade brasileira que se aproxima em muito da interpretação das estruturas sociais no Brasil colonial realizada por Sérgio Buarque no capítulo “O homem cordial”, de Raízes do Brasil (1936). Assim, no lugar do comportamento corajoso, austero e disciplinado, próprios a um oficial militar, aquilo que se revela no episódio do tenente “Carvalhall” com as Amazonas é a sua covardia diante da morte, sua falta de disciplina para as atividades que lhe foram designadas pelas guerreiras. Aliás, as índias talvez não tenham desejado comê-lo porque não encontraram atributos admiráveis em sua carne, desse modo, efetuando uma clara alusão à história de Hans Staden entre os índios Tupinambá. Da mesma forma, na missão onde trabalham as freiras Tivi e Uxa o tenente revela sua total falta de disciplina no convívio com os índios Galibi. O ex-tenente tem acesso mais que facilitado para conviver e conversar com qualquer membro da tribo, que vai do tuxaua Calibã, passa pelo pajé Cunhãmbebe e chega ao índio Axi. O relacionamento íntimo que se estabelece entre o ex-tenente e Axi é indiferentemente permitido e aceito socialmente entre os Galibi. Essa é o modo pelo qual Utopia Selvagem olha e destaca a frouxidão das estruturas sociais no Brasil. Tal desleixo reside na ausência de fortes elementos fundadores e vivificadores que faz com que instituições jovens entrem em franca decadência logo após deixarem a adolescência. Isso está de alguma maneira atrelada à leitura que Raízes do Brasil opera dessas mesmas estruturas.
O livro Utopia Selvagem parece, à primeira leitura, querer reeditar, atendendo ao apelo mais forte da obra de seu autor, uma interpretação da formação do povo brasileiro e de sua identidade cultural por meio da elaboração de genealogias. Entretanto, uma genealogia não consegue mais sustentar, depois de 1790, o campo simbólico que constrói a idéia de nação. Uma genealogia não funda mais uma identidade nacional. Sendo assim, cria-se uma expectativa de verificar como Utopia Selvagem sugere outras possibilidades. O livro lança mais um modo de olhar para o problema da identidade cultural. A procura pelos momentos formativos dessa suposta identidade, em Utopia Selvagem, é prospectiva, não estabelece as genealogias compostas com base num passado colonial como explicações do presente. O futuro, ou melhor, o arranjo de quadros do presente é que determinará a forma dessa identidade. A fábula está baseada na variação de ritmos, acelerações e repousos, como uma partitura nervosa ou como um relógio de infinita variedade de velocidades. E é sob esse princípio de variação que lateja a possibilidade de uma leitura não-totalizadora. Há uma importante força latente nesse texto que, operando variações nos discursos instituídos, ainda que mínimas, acena para um futuro: o de criar comunidades imaginárias. Assim, instituem-se, de fato, genealogias específicas, que, todavia, a partir de sua implosão, ampliam territórios e possibilitam o aparecimento de solidariedades particulares. Dessa forma, falar por essa língua pode significar a supressão de fronteiras no texto, as do tempo: as que a história do Brasil oferece; e as do espaço: as fronteiras com outros países que têm a floresta amazônica como território comum. Isso torna possível uma relação outra entre dois eixos fundamentais da narrativa, o tempo e o espaço, como igualmente acena com a possibilidade de superação das dicotomias constituintes da própria obra de Darcy Ribeiro, o que quer dizer, a dicotomia entre bárbaro/civilizado, citadino/selvagem, arcaico/moderno.
Com Utopia Selvagem há um aceno para a saída do discurso que se estabelece por oposição e em pares binários e que instaura a nacionalidade na comparação com outras nações, com outros povos. Esse novo discurso reajusta os campos que a instituição nacional insiste em fragmentar: o dos nativos e o dos forasteiros. Em Utopia Selvagem quais são aqueles personagens que podem pertencer a esse ou aquele campo? Quem é o nativo e quem é o forasteiro na tribo das Amazonas? Poderíamos pensar logo em Pitum. Porém, sua categoria de não-pertencente à tribo devido ao seu nascimento em outro território e outra cultura é desconsiderada. Assim, o não-pertinente, o “estrangeiro”, torna-se uma interferência na própria categoria do pertinente. Mas, ainda assim, é preciso construir um discurso capaz de desnaturalizar essa não-pertinência. Essa construção, por meio de figuras de linguagem, tende a interferir no imaginário social, ampliando-o e fazendo proliferar novas categorias para a identificação coletiva da nação. Não é pelo fato de que sejam feitas de linguagem que essas construções devam ser compreendidas como menos verdadeiras do que aquelas que já foram assimiladas pelo imaginário coletivo, cujo sentido já foi assimilado como natural. Dessa forma, tanto a figura de Pitum como as das “monjas” são criações sobredeterminadas, desviam dos determinismos oferecidos numa leitura de enfoque unicamente realista do imaginário coletivo. Essas criaturas são mais cifradas do que evidentes, mais plurais do que binárias, menos instinto e mais instituição, elas são criação literária.
Nesse sentido, o procedimento narrativo de Utopia Selvagem faz dos resíduos da nação a própria nação. Com isso, Darcy Ribeiro esboça os princípios de uma política também sobredeterminada, uma ‘hiperpolítica’, que poderia ser explicada como a aceitação da convivência dos irreconciliáveis: do nativo e do forasteiro e de todas as demais categorias da diferença. Essa seria verdadeiramente uma política cosmopolita: os verdadeiros cosmopolitas serão os que puderem conviver, com olhar universalista, com as idiossincrasias da região. As Amazonas, Pitum, Calibã e Tivi poderiam compor o quadro da nacionalidade cosmopolita. Essas figuras negam a política ‘megalopática’ de um Brasil holístico, bem como a da busca de uma representação do povo brasileiro via persuasão ‘holopática’.
Darcy Ribeiro desenvolve em Utopia Selvagem a interpretação de que os sujeitos, com todas as suas diferenças, formam as nações e não o contrário. Dessa forma, a figura das Amazonas define uma concepção de prática cultural. Essas índias estão incompletas para criar as novas gerações de sua cultura. Para tanto precisam do tenente “Carvalhall”. Elas precisam do outro na configuração de si, resultando na interação entre as culturas. Assim, a cultura será definida como mobilidade gerada pelo alargamento da experiência de seus membros e a estrutura dessa cultura não poderá ser predeterminada.
A discussão sobre a utopia da nacionalidade ou da identidade nacional em Darcy Ribeiro traz à superfície o que está submerso no debate intelectual dos últimos oito anos no Brasil. Em nome de um estreitamento da definição do que seria e do que faria o estado nacional, assiste-se a uma destruição de tudo aquilo relacionado ao serviço que esse mesmo estado deveria prestar à sociedade. A utopia da nação, ‘holopática', no livro O povo brasileiro, e proliferativa, no romance Utopia selvagem, é resultado de uma ansiedade presente em toda a obra de Darcy Ribeiro: uma ansiedade pela utopia como o lugar da solidariedade social.
Referências Bibliográficas:
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995
RIBEIRO, Darcy. Maíra. 1. ed.: Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1976.
_____. Utopia Selvagem. 1. ed.: Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981.
_____. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 1. ed.: Editora Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
[1] “É preciso um agenciamento para que se faça a relação entre dois estratos.” E, “as Amazonas”, lembram os autores, “não têm que cortar um seio para que o estrato orgânico se adapte a um estrato tecnológico guerreiro, por exigência de um terrível agenciamento mulher-arco-estepe? São necessários agenciamentos para que os estados de forças e regimes de signos entrecruzem as relações.” “Genealogia da moral (Quem a Terra Pensa que É ?)” , em Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 1, trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 1995, p. 88-89.